24 de mai de 2008

Pais Maus - Dr. Carlos Hecktheuer

O texto abaixo foi entregue pelo professor de Ética e Cidadania da escola Objetivo/Americana a todos os alunos da sala de aula, para que entregassem a seus pais. A única condição solicitada pelo mesmo foi de que cada aluno ficasse ao lado dos pais até que terminassem a leitura.

O texto, a seguir transcrito, foi publicado por ocasião da morte estúpida de Tarsila Gusmão e Maria Eduarda Dourado (2003), ambas de 16 anos, em Maracaípe – porto de Galinhas. Depois de 13 dias desaparecidas, as mães revelaram desconhecer os proprietários da casa onde as filhas tinham ido curtir o fim de semana. A tragédia abalou a opinião pública.


PAIS MAUS

Traduzido pelo Dr. Carlos Hecktheuer (médico psiquiatra)

"Quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-lhes:

Eu os amei o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão.

Eu os amei o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia.

Eu os amei o suficiente para fazê-los pagar as balas que tiraram do supermercado e dizer ao dono: “Nós pegamos isto ontem e queremos pagar”.
Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam o seu quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.

Eu os amei o suficiente para deixá-los assumir a responsabilidade das suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.

Mais do que tudo:
Eu os amei o suficiente para dizer-lhes “não”, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso, e alguns momentos até me odiaram. Essas eram as mais difíceis batalhas de todas.

Estamos contentes, vencemos! Porque no final vocês venceram também!


E em qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães; quando eles lhes perguntarem se seus pais eram maus, meus filhos vão lhes dizer: “Sim, nossos pais eram maus. Eram os pais mais malvados do mundo”.

As outras crianças comiam doces no café e nós tínhamos que comer cereais, ovos, torradas. As outras crianças bebiam refrigerantes, comiam batatas fritas e sorvete no almoço e nós tínhamos que comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas. (E eles nos obrigavam a jantar à mesa, bem diferente dos outros pais que deixavam seus filhos comerem vendo televisão).

Nossos pais tinham que saber quem eram os nossos amigos e o que nós fazíamos com eles.
Insistiam que lhes disséssemos com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos.

Nossos pais insistiam sempre conosco para que lhes disséssemos sempre a verdade e apenas a verdade.
E quando éramos adolescentes, eles conseguiam até ler os nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata!

Nossos pais não deixavam os nossos amigos tocarem a buzina para que saíssemos; tinham que subir, bater à porta, para que os nossos pais os conhecessem.
Enquanto todos podiam voltar tarde da noite com 12 anos, tivemos que esperar pelo menos 16 para chegar um pouco mais tarde, e aqueles chatos levantavam para saber se a festa foi boa (só para verem como estávamos ao voltar).

Por causa dos nossos pais, nós perdemos imensas experiências na adolescência.
Nenhum de nós esteve envolvido com drogas, em roubo, em atos de vandalismo, em violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime.


FOI TUDO POR CAUSA DOS NOSSOS PAIS!

Agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos a fazer o melhor para sermos “PAIS MAUS”, como eles foram.


EU ACHO QUE ESTE É UM DOS MALES DO MUNDO DE HOJE: NÃO HÁ PAIS MAUS SUFICIENTES!"

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Por Regiane Humel - psicóloga

“Essa semana, saindo de casa, um colega me contou que um de seus alunos deu um tapa no rosto de um professor e mais, que a mãe do aluno o apoiou dizendo: -‘Há, ele deve ter feito alguma coisa que ele não gostou’.
Fiquei boquiaberta, meu primeiro pensamento foi:- ‘Será que essa mãe não percebe que daqui alguns anos esse mesmo aluno, insatisfeito com o professor, seu filho, poderá estar insatisfeito com ela’?

Estabelecer limites na educação é essencial. Isso não quer dizer que terá que tornar sua casa um lugar rígido, cristalizado; segundo J.L. Moreno isso nos leva a perda de espontaneidade e criatividade; mas sim em um lar onde haja respeito, amor e união entre seus membros. Os filhos com maus comportamentos têm que ser punidos sim; mas o segredo está em como fazer. Há várias maneiras de punição e acredito que a física não é a correta, pois a criança é somente o reflexo de seus pais.
Içami Tiba (Psiquiatra, Psicodramatista) diz que os pais (homens) estão mais presentes na educação de seus filhos; isso não quer dizer que a mãe esteja menos participativa; porém a conseqüência é o ’amolecimento’ das atitudes dos pais e quem acaba fazendo o papel de ‘durão’ é a mãe; portanto temos aqui, dois extremos. Segundo Aristóteles o caminho do meio é a condição fundamental para se atingir a felicidade maior, sendo o mais saudável, ou seja, nem tanto nem tão pouco. Excluindo a interferência dos fatores externos, professores, amigos, conhecidos e desconhecidos, que tem importância no aprendizado; os pais têm os papéis mais importantes para a inclusão desses limites; porém é necessário existir harmonia entre o casal (mesmo pais separados), a ‘quantidade de autoritarismo’ tem que ser igual, se fosse uma receita, eu diria duzentos gramas para o pai e duzentos gramas para a mãe.
Uma dica, o caminho do meio representa um equilíbrio entre os extremos e, portanto, um caminho possível, lembrando sempre que o dialogo entre os pais e fundamental para uma boa educação, seja qual for sua cultura, crença, religião ou raça. Sei que não é uma tarefa fácil, mas não desista, precisamos muito de ‘pais maus’!”
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Um comentário:

Anônimo disse...

Ainda não conhecia esse texto, não sou mãe porém, passados esses anos, tornando-me uma mulher 'adulta', entendo melhor a minha.
Esse texto me resgatou muitos detalhes que haviam passado desapercebidos.
Minha primeira atitude foi ligar para ela e dizer mais uma vez o quanto a amo. (só para ela não esquecer, uahuahuah).
Obrigada amiga, por mais esse momento de reflexão que pude ter ao me aproximar de você.

beijos,

Lana